Transtornos alimentares: principais tipos e quando procurar ajuda

Psiquiatra Florianópolis

Os transtornos alimentares são condições de saúde caracterizadas por alterações persistentes no comportamento alimentar e na relação com a comida, peso e imagem corporal. Podem causar sofrimento significativo e comprometer tanto a saúde física quanto emocional. Embora frequentemente associados à preocupação com o peso, nem todos os transtornos alimentares envolvem medo de engordar ou insatisfação com a aparência. Além disso, uma pessoa não precisa estar abaixo do peso para apresentar um transtorno alimentar.

Quais são os principais transtornos alimentares?

Anorexia nervosa

A anorexia nervosa caracteriza-se pela restrição da ingestão alimentar, levando a um peso corporal significativamente baixo, associada ao medo intenso de ganhar peso ou a comportamentos que dificultam a sua recuperação.

Também costuma haver alterações na forma como a pessoa percebe ou avalia o próprio peso e corpo.

Algumas pessoas apresentam ainda episódios de compulsão alimentar ou comportamentos compensatórios, como vômitos autoinduzidos ou uso inadequado de laxantes.

Bulimia nervosa

Na bulimia nervosa ocorrem episódios recorrentes de compulsão alimentar, nos quais a pessoa ingere uma quantidade elevada de alimentos em determinado período com a sensação de perda de controle.

Após esses episódios, surgem comportamentos compensatórios para tentar evitar o ganho de peso, como vômitos autoinduzidos, jejum, uso inadequado de laxantes ou diuréticos e exercício físico excessivo.

Transtorno de compulsão alimentar

Também envolve episódios recorrentes de compulsão alimentar e sensação de perda de controle sobre a alimentação.

A principal diferença em relação à bulimia é que não há comportamentos compensatórios recorrentes, como provocar vômitos, fazer jejum ou praticar exercícios excessivamente para compensar o que foi ingerido.

Os episódios costumam estar associados a sofrimento significativo e podem envolver comer rapidamente, comer mesmo sem fome, continuar até sentir desconforto ou alimentar-se sozinho por vergonha.

Transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE/ARFID)

No transtorno alimentar restritivo/evitativo, a pessoa restringe significativamente a quantidade ou a variedade dos alimentos que consome, podendo apresentar deficiência nutricional, perda de peso ou prejuízo importante no funcionamento cotidiano.

Diferentemente da anorexia nervosa, essa restrição não ocorre por preocupação com peso ou imagem corporal.

Pode estar relacionada à falta de interesse pela alimentação, à sensibilidade intensa a características dos alimentos (como textura, cheiro ou sabor) ou ao medo das consequências de comer, como engasgar ou vomitar.

O que causa um transtorno alimentar?

Os transtornos alimentares são compreendidos como condições multifatoriais, resultantes da interação entre fatores biológicos, psicológicos e socioculturais.

Entre os fatores associados a maior vulnerabilidade estão predisposição genética e familiar, características psicológicas individuais, experiências adversas, pressão relacionada à aparência e ao peso, dietas restritivas e determinados contextos sociais e culturais. Alterações em sistemas cerebrais relacionados à recompensa, controle cognitivo e processamento emocional também vêm sendo estudadas. No entanto, isso não significa que exista um exame de imagem capaz de diagnosticar um transtorno alimentar.

É frequente a presença de outros transtornos psiquiátricos associados, especialmente:

  • depressão;
  • transtornos de ansiedade;
  • transtorno obsessivo-compulsivo;
  • uso problemático de álcool ou outras substâncias;
  • outros transtornos mentais.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é predominantemente clínico. A avaliação envolve uma investigação detalhada dos hábitos alimentares, episódios de compulsão, comportamentos compensatórios, preocupação com peso e imagem corporal, mudanças recentes de peso, prática de exercícios e possíveis consequências físicas e psicológicas. Também são avaliados peso, altura, sinais vitais e estado geral de saúde. Exames laboratoriais e, quando necessário, outros exames complementares podem ser solicitados para investigar diagnósticos diferenciais e identificar complicações relacionadas ao transtorno alimentar.

Uma pessoa pode apresentar um transtorno alimentar mesmo com exames laboratoriais inicialmente normais. Da mesma forma, o peso corporal isoladamente não permite confirmar ou excluir o diagnóstico.

Como é o tratamento?

O tratamento depende do tipo de transtorno, de sua gravidade e das condições clínicas de cada pessoa. Em muitos casos, é necessária uma abordagem multidisciplinar. O acompanhamento pode envolver:

Psicoterapia: diferentes abordagens psicoterápicas possuem evidências para o tratamento dos transtornos alimentares. A escolha depende do diagnóstico, da idade e das características individuais.

Acompanhamento nutricional: auxilia na recuperação de um padrão alimentar adequado, no tratamento de deficiências nutricionais e na reconstrução de uma relação mais saudável com a alimentação.

Acompanhamento médico: é importante para avaliar as repercussões físicas do transtorno, acompanhar peso, sinais vitais, exames e possíveis complicações.

Medicamentos: podem ser utilizados em determinadas situações, dependendo do transtorno alimentar e da presença de outros sintomas ou condições psiquiátricas. A medicação, entretanto, não substitui as demais intervenções necessárias.

Algumas pessoas podem realizar todo o tratamento ambulatorialmente. Em situações de maior gravidade pode ser necessária internação ou tratamento mais intensivo.

Quais problemas os transtornos alimentares podem causar?

As consequências variam de acordo com o transtorno, sua duração e gravidade. Entre as possíveis complicações estão:

  • deficiências nutricionais;
  • alterações hormonais e menstruais;
  • alterações cardiovasculares;
  • desidratação e distúrbios de eletrólitos;
  • hipoglicemia;
  • anemia e outras alterações hematológicas;
  • perda de massa óssea;
  • fraqueza e fadiga;
  • alterações gastrointestinais;
  • problemas dentários e lesões do esôfago, especialmente quando há vômitos recorrentes;
  • alterações na pele, cabelos e unhas;
  • prejuízo da atenção, memória e capacidade de concentração;
  • alterações no crescimento e desenvolvimento em crianças e adolescentes.

Em casos graves, algumas dessas complicações podem representar risco à vida.

Quais sinais merecem atenção?

Algumas mudanças de comportamento podem indicar que a relação com a alimentação está se tornando problemática. Entre elas:

  • pular refeições repetidamente ou restringir cada vez mais os alimentos;
  • preocupação excessiva com peso, calorias ou aparência corporal;
  • medo intenso de ganhar peso;
  • perda significativa de peso em pouco tempo;
  • episódios recorrentes de ingestão de grande quantidade de alimentos acompanhados de perda de controle;
  • provocar vômitos ou utilizar outros métodos para tentar compensar o que comeu;
  • exercício físico excessivo ou compulsivo;
  • evitar comer na presença de outras pessoas;
  • criar rituais rígidos em torno da alimentação;
  • sentir culpa, vergonha ou ansiedade intensa depois de comer;
  • pensar em comida, peso ou aparência durante grande parte do dia.

Quando procurar ajuda?

Se a alimentação, o peso ou a imagem corporal passaram a ocupar uma parcela excessiva dos pensamentos, provocar sofrimento ou interferir na saúde e na vida cotidiana, é importante procurar avaliação.

Também é recomendável buscar ajuda quando familiares ou pessoas próximas percebem mudanças importantes no comportamento alimentar, perda significativa de peso, compulsões, vômitos provocados ou outras alterações preocupantes.